
PEÇA: PLUFT, O FANTASMINHA, DE MARIA CLARA MACHADO
14/10/2026Um ator não se forma apenas fazendo aulas e exercícios. Ler teatro também faz parte do treinamento.
Conhecer diferentes dramaturgos, épocas e estilos amplia nosso repertório, ajuda a compreender estruturas dramáticas e coloca o ator diante de personagens muito diferentes daqueles que talvez esteja acostumado a interpretar.
Isso não significa que exista uma lista definitiva de peças que alguém precise ler para poder se considerar ator. Mas existem obras que marcaram profundamente a história do teatro e que podem ensinar muito sobre atuação.
Se você quer ampliar seu repertório, estas são algumas ótimas peças para começar.
1. Édipo Rei — Sófocles
Comecemos por uma das grandes tragédias gregas.
Em Édipo Rei, acompanhamos um homem tentando descobrir a origem de uma tragédia que atinge sua cidade, sem perceber que sua investigação o aproxima cada vez mais de uma verdade terrível sobre ele mesmo.
Para o ator, a obra permite observar elementos fundamentais da tragédia, como destino, reconhecimento, conflito, coro e transformação do personagem.
Também é um excelente texto para perceber como uma personagem pode começar uma história em determinado lugar emocional e terminar completamente transformada.
O que observar: arco do personagem, tragédia, coro, revelação e mudança de status.
Temos um artigo especificamente sobre esta peça: Veja aqui
2. Hamlet — William Shakespeare
“Ser ou não ser” é apenas uma pequena parte de tudo o que Hamlet oferece a um ator.
A peça trabalha vingança, dúvida, morte, poder, família, aparência e realidade. Hamlet pensa, questiona, cria estratégias, observa os outros e modifica seu comportamento de acordo com quem está diante dele.
E não é apenas Hamlet que merece atenção. Ofélia, Cláudio, Gertrudes, Polônio e Laertes oferecem materiais riquíssimos para estudo.
Shakespeare também é uma ótima oportunidade para perceber que textos escritos há séculos continuam discutindo comportamentos profundamente humanos.
O que observar: pensamento em cena, monólogos, subtexto, objetivos, relações e transformação.
Temos um artigo especificamente sobre esta peça: Veja aqui
3. Tartufo — Molière
Para quem quer estudar comédia, Molière é fundamental.
Em Tartufo, a hipocrisia ocupa o centro da história. O personagem que dá nome à peça consegue manipular uma família utilizando justamente a imagem de virtude que construiu para si.
É uma ótima leitura para observar tipos cômicos, ritmo, conflito e exagero sem esquecer que os personagens possuem objetivos muito concretos.
O que observar: construção de personagens cômicos, ritmo, hipocrisia, jogo e relações de poder.
4. Casa de Bonecas — Henrik Ibsen
Nora aparentemente possui uma vida confortável ao lado do marido e dos filhos. Aos poucos, porém, começamos a compreender as estruturas que sustentam aquela família e o lugar ocupado por ela dentro desse relacionamento.
Casa de Bonecas é uma obra importante do teatro moderno e oferece um excelente material para atores interessados em relações humanas mais próximas do cotidiano.
Aqui, pequenos comportamentos, silêncios e mudanças na relação podem ter enorme importância.
O que observar: subtexto, transformação da personagem, relações, conflito social e comportamento.
Temos um artigo especificamente sobre esta peça aqui: Veja aqui
5. A Gaivota — Anton Tchekhov
Em Tchekhov, muitas vezes aquilo que não é dito é tão importante quanto aquilo que aparece explicitamente no texto.
Em A Gaivota, encontramos artistas, relações amorosas, frustrações, desejos, conflitos familiares e personagens tentando encontrar algum sentido para suas vidas.
É um texto maravilhoso para estudar subtexto porque os personagens nem sempre dizem diretamente aquilo que querem.
Para o ator, surge um desafio: como tornar visível aquilo que o personagem não verbaliza?
O que observar: subtexto, silêncio, escuta, ações, relações e desejos não realizados.
Temos um artigo especificamente sobre esta peça aqui: Veja aqui
6. As Três Irmãs — Anton Tchekhov
Sim, Tchekhov aparece novamente, e por um bom motivo. Olga, Macha e Irina sonham em retornar a Moscou enquanto suas vidas continuam acontecendo. O desejo existe, mas o tempo passa. A peça é excelente para estudar personagens que possuem uma vida interior enorme sem necessariamente expressá-la de maneira explosiva.
O que observar: objetivos, passagem do tempo, frustração, cotidiano, escuta e vida interior.
7. A Vida de Galileu — Bertolt Brecht
Conhecer Brecht é importante para compreender que nem todo teatro busca a mesma relação entre ator, personagem e público.
Em A Vida de Galileu, acompanhamos conflitos envolvendo ciência, poder, conhecimento e responsabilidade.
Para o ator acostumado principalmente a buscar identificação completa com o personagem, estudar Brecht pode abrir outras possibilidades: o ator também pode apresentar, observar e posicionar criticamente o comportamento da personagem, em vez de simplesmente desaparecer dentro dela.
O que observar: Teatro Épico, distanciamento, relação com o público e dimensão social das ações.
8. Esperando Godot — Samuel Beckett
Dois homens esperam por alguém chamado Godot. E esperam. E continuam esperando.
A premissa aparentemente simples se transforma em uma das obras mais importantes do chamado Teatro do Absurdo.
Para atores, o texto apresenta desafios enormes de ritmo, repetição, silêncio, precisão e presença. Quando aparentemente “nada acontece”, cada pequena ação ganha importância.
O que observar: ritmo, pausa, repetição, silêncio, absurdo e precisão.
Temos um artigo especificamente sobre esta peça aqui: Veja aqui
9. Um Bonde Chamado Desejo — Tennessee Williams
Blanche DuBois chega à casa da irmã, Stella, e encontra um ambiente muito diferente daquele ao qual tenta se agarrar. A relação entre Blanche, Stella e Stanley cria uma atmosfera de desejo, violência, fragilidade, memória e conflito.
Tennessee Williams constrói personagens extremamente complexos, nos quais aquilo que eles apresentam ao mundo nem sempre corresponde ao que realmente está acontecendo internamente.
O que observar: contradições, passado do personagem, vulnerabilidade, relações e subtexto.
10. Morte de um Caixeiro-Viajante — Arthur Miller
Willy Loman construiu uma ideia de sucesso e passou grande parte da vida tentando alcançá-la e tentando fazer com que seus filhos também acreditassem nela. A peça de Arthur Miller permite estudar expectativas, fracasso, família, memória e identidade. Para o ator, é especialmente interessante perceber como passado e presente se misturam e como aquilo que uma personagem acredita sobre si mesma influencia suas ações.
O que observar: memória, relações familiares, conflito interno, objetivos e construção psicológica.
Temos um artigo especificamente sobre esta peça aqui: Veja aqui
11. O Beijo no Asfalto — Nelson Rodrigues
Também precisamos olhar para a dramaturgia brasileira.
Em O Beijo no Asfalto, um gesto aparentemente simples desencadeia uma sucessão de julgamentos, suspeitas, manipulações e consequências.
Nelson Rodrigues trabalha relações familiares, moralidade, desejo, aparência e julgamento social de uma maneira profundamente teatral.
Para atores, seus personagens exigem cuidado: se interpretados apenas pelo exagero, podem se tornar caricaturas. É preciso encontrar a humanidade dentro das situações extremas.
O que observar: conflito, julgamento social, relações familiares, tensão e contradição.
Temos um artigo especificamente sobre esta peça aqui: Veja aqui
12. O Auto da Compadecida — Ariano Suassuna
A obra acompanha as aventuras de João Grilo e Chicó e mistura religiosidade, cultura popular, crítica social e muito humor.
Para o ator, O Auto da Compadecida oferece um universo completamente diferente de uma dramaturgia realista. Ritmo, corpo, jogo e relação com o público ganham enorme importância.
Também é um excelente exemplo de como personagens populares podem ser construídos com profundidade sem perder sua força cômica.
O que observar: comicidade, cultura popular, ritmo, tipos, corpo e jogo.
13. Eles Não Usam Black-Tie — Gianfrancesco Guarnieri
Um marco da dramaturgia brasileira.
A peça coloca no centro do palco trabalhadores e seus conflitos familiares, sociais e políticos. O embate entre Tião e seu pai, Otávio, ultrapassa uma simples divergência entre dois personagens e revela diferentes maneiras de enxergar responsabilidade, sobrevivência e coletividade.
Para atores, é um ótimo exemplo de como questões sociais podem aparecer através de conflitos profundamente pessoais.
O que observar: conflito familiar, contexto social, escolhas, objetivos e realismo.
14. Navalha na Carne — Plínio Marcos
Em um quarto pequeno, três personagens estabelecem relações marcadas por desejo, exploração, violência e sobrevivência.
Plínio Marcos coloca diante do público pessoas que frequentemente permaneciam afastadas dos palcos e constrói uma dramaturgia dura, direta e sem idealização.
Para o ator, existe um desafio importante: não julgar o personagem nem transformar violência em uma única nota de interpretação.
O que observar: escuta, tensão, relações de poder, linguagem, vulnerabilidade e personagens marginalizados.
Não leia apenas para conhecer a história
Um ator pode ler uma peça de maneira diferente de quem procura apenas acompanhar seu enredo.
Enquanto lê, experimente perguntar:
O que esse personagem quer? O que faz para conseguir? O que muda quando sua estratégia não funciona? O que ele pensa e não diz? Como sua relação com cada personagem modifica seu comportamento? O que aconteceu antes da cena começar? Qual é seu arco ao longo da peça?
Você pode ainda escolher algumas cenas e lê-las em voz alta, experimentar ações diferentes para uma mesma fala ou imaginar como interpretaria determinado personagem.
Dessa maneira, a leitura também se transforma em treinamento.
Vá além dos textos que você gosta
Existe ainda um motivo importante para conhecer peças muito diferentes.
Talvez você adore Tchekhov e não goste de Brecht. Talvez Shakespeare pareça distante demais. Talvez o Teatro do Absurdo cause estranhamento ou você prefira uma dramaturgia contemporânea e realista.
Leia mesmo assim.
Um ator não precisa gostar de todas as linguagens, mas ganha muito quando consegue compreendê-las.
Conhecer tragédia grega, Shakespeare, realismo, comédia, Teatro Épico, Teatro do Absurdo e diferentes momentos da dramaturgia brasileira significa aumentar a quantidade de ferramentas disponíveis quando chegar um novo personagem.
Conclusão
Ler peças é uma das maneiras mais acessíveis de continuar estudando atuação.
Cada dramaturgo apresenta uma maneira diferente de compreender o ser humano, o conflito e o próprio teatro. Quanto maior o repertório do ator, maior também será sua capacidade de reconhecer estilos, compreender personagens e experimentar novas possibilidades em cena.
Você não precisa ler todas essas peças de uma vez. Pode começar com uma. Depois outra. Quem sabe criar a meta de ler uma peça por mês? Ao final de um ano, você terá conhecido doze novos universos, dezenas de personagens e diferentes maneiras de fazer teatro.
E para um ator, repertório também é ferramenta de trabalho.
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